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Derivaldo Souza – Deri da Saúde

Violência contra enfermagem acende alerta na Bahia

Coren-BA lança campanha de proteção após registrar 565 processos relacionados a casos de violência contra profissionais nos últimos três anos

A violência contra profissionais de enfermagem voltou ao centro do debate na Bahia. Diante do aumento de relatos de agressões e outras formas de violência no ambiente de trabalho, o Conselho Regional de Enfermagem da Bahia (Coren-BA) lançou, em agosto, a Campanha de Combate à Violência na Saúde.

A iniciativa busca conscientizar a sociedade sobre a gravidade das agressões sofridas por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem durante o exercício profissional. A mensagem é direta: a insatisfação da população com a demora no atendimento, a superlotação das unidades e outras deficiências do sistema não pode ser descarregada sobre quem está na linha de frente da assistência.

Dados divulgados pelo Coren-BA mostram a dimensão do problema no estado. Foram registrados 169 processos em 2024, 163 em 2025 e 233 apenas em 2026, considerando levantamento realizado até agosto. Ao todo, são 565 registros nos últimos três anos.

Somente em 2026, o número já supera em cerca de 43% o total contabilizado durante todo o ano anterior.

Entre as ocorrências registradas estão suspeitas de agressão física e ameaça, violência verbal, injúria, assédio moral, calúnia, difamação, perseguição no ambiente de trabalho, discriminação racial, abuso de autoridade e outras situações de constrangimento e exposição.

Casos recentes aumentaram o alerta

Segundo o presidente do Coren-BA, Davi Apóstolo, o crescimento dos relatos e a sucessão de episódios de violência contra profissionais foram fatores determinantes para a criação da campanha.

Um dos casos que chamou atenção ocorreu no Hospital Professor Eládio Lassére, em Cajazeiras, Salvador, onde três enfermeiras foram agredidas durante um plantão.

O episódio reforçou uma preocupação que ultrapassa casos isolados. Profissionais responsáveis pelo cuidado e pela assistência à população continuam expostos a agressões físicas, verbais e outras formas de violência dentro dos próprios ambientes de trabalho.

O problema também não se restringe à Bahia. Dados divulgados pelo Conselho Federal de Enfermagem apontam que mais de 28% dos profissionais da categoria no Brasil sofreram algum tipo de violência no ambiente de trabalho nos últimos anos.

Profissional não pode ser responsabilizado por falhas do sistema

Um dos principais objetivos da campanha é reforçar que problemas estruturais da saúde não são responsabilidade individual dos trabalhadores que estão no atendimento direto à população.

Superlotação, demora, falta de insumos e equipes insuficientes são desafios que exigem respostas das instituições e dos gestores. Não cabe ao profissional de enfermagem ser transformado em alvo da revolta provocada por essas deficiências.

Outro ponto destacado pelo Coren-BA é que o atendimento nas unidades de saúde segue critérios técnicos de gravidade e risco. Por isso, nem sempre a ordem de chegada determina quem será atendido primeiro.

A assistência é organizada de acordo com a necessidade clínica de cada paciente, e os profissionais que executam esse trabalho precisam ter sua atuação respeitada.

Proteger quem cuida é uma prioridade

Para Deri da Saúde, técnico de enfermagem e defensor das causas da categoria, o avanço da violência contra os profissionais exige uma resposta mais firme das instituições e de toda a sociedade.

A defesa da enfermagem passa pela valorização do trabalho, mas também pela garantia de segurança para quem exerce uma das funções mais essenciais da assistência à saúde.

“Não podemos permitir que a violência contra a enfermagem seja tratada como algo normal. Quem está em uma unidade de saúde trabalhando para cuidar da população precisa ter segurança para exercer sua profissão. Problemas estruturais do sistema devem ser cobrados de quem tem a responsabilidade de resolvê-los, e não descarregados sobre o profissional que está na linha de frente.”

Deri da Saúde também reforça que a proteção da categoria precisa estar associada a melhores condições de trabalho, equipes adequadamente dimensionadas, jornadas compatíveis, espaços dignos de descanso e suporte efetivo aos profissionais que forem vítimas de agressões.

Canal para denúncias e orientação às vítimas

O Coren-BA mantém um canal exclusivo para o recebimento de relatos de agressões físicas ou verbais contra profissionais de enfermagem.

Enfermeiros, técnicos e auxiliares podem encaminhar denúncias para o e-mail denunciasassedio@coren-ba.gov.br. Segundo o Conselho, os casos recebidos são acolhidos formalmente e podem ser encaminhados aos órgãos competentes para as providências cabíveis.

Em situações de violência, a orientação é registrar boletim de ocorrência e, nos casos de agressão física, buscar a realização de exame de corpo de delito. Fotografias, documentos, testemunhas e outros elementos também podem contribuir para a apuração dos fatos.

O Coren-BA destaca ainda a responsabilidade das instituições empregadoras no suporte psicológico e jurídico aos trabalhadores vítimas de violência.

Condições de trabalho também fazem parte da proteção

O enfrentamento à violência contra a enfermagem não se limita à punição dos agressores. A discussão envolve também as condições enfrentadas diariamente pelos profissionais.

Jornadas exaustivas, múltiplos vínculos, dimensionamento insuficiente das equipes, remuneração e condições adequadas de descanso fazem parte de um conjunto de fatores que precisa ser enfrentado.

Nesse contexto, o Coren-BA informou que vem atuando junto ao Ministério Público do Trabalho, sindicatos e instituições de saúde em busca de melhorias nas condições de trabalho.

Uma das frentes envolve o cumprimento da Lei Federal nº 14.602/2023, que estabelece a obrigatoriedade de locais adequados de repouso para profissionais de enfermagem durante a jornada de trabalho.

Violência não pode ser naturalizada

Cobrar melhorias na saúde é um direito da população. Exigir atendimento digno, estrutura adequada e eficiência dos serviços também é legítimo.

O que não pode ser aceito é a transformação dos profissionais de enfermagem em alvos de agressões, ameaças, humilhações e outras formas de violência.

A segurança de quem cuida também interfere diretamente na qualidade da assistência prestada à população.

Proteger a enfermagem é proteger o atendimento em saúde.

E essa responsabilidade precisa ser compartilhada por gestores, instituições, órgãos públicos e toda a sociedade.

Fonte: Ascom – (Coren-BA)